sexta-feira, 10 de junho de 2011

*Dra. HELOISA DINI*

Dra. HELOISA DINI 

Esta poetiza, por mim homenageada, é uma mulher ímpar, que assim como as mulheres que mais admiro, é uma desbravadora que costumo chamar de "minha ídola", porque além de tudo o mais que ela representa, em 1985  foi a primeira mulher brasileira eleita presidente de sub-seção da Ordem dos Advogados do Brasil, sendo que sua chapa foi composta apenas por mulheres. Competente, corajosa, ela marca sua vida como profissional e cidadã envolvida em movimentos beneficentes. (fonte: Rui Albuquerque - no Espaço do Rui do Jornal Ipanema).

Abaixo, copio a mensagem enviada por ela aos seus amigos, entre os quais tenho o privilégio de me incluir, relatando o achado destas preciosidades, entre os seus guardados:

- "Queridos amigos,

       Foi-se o tempo em que eu tinha tempo e me entregava a simplórias escrevinhações.  
Um dia, tantos anos, joguei fora o caderno de poesias, crônicas e contos, achando que eu não era mais aquilo que ali estava.  
Às vezes tenho saudade do caderno desprezado.
Hoje, em antigos guardados, encontrei algumas delas e, ressuscitadas, compartilho com vocês.  E já pedindo perdão pelo amadorismo.
Marcas de uma época.  Tantas lutas e dificuldades vencidas. 
Uf, sobrevivi!"

Não só sobreviveu, como venceu!
Então vamos ao que interessa... algumas de suas "jóias", esperando que esta pequena homenagem, sirva de incentivo para que esse dom não mais se cale:


VALE A PENA VIVER
 Está escuro lá fora
mas é dia mesmo assim,
na minha alma ainda mora
Um pedacinho de mim.

Chove, na rua e cá dentro,
água que molha o meu ser,
lagoa onde sempre encontro
uma razão de viver.

E entro devagar na vida,
que teima em querer correr,
sem querer ficar esquecida
porque vale a pena viver!


LEMBRANÇAS
 Aquele piano velho que irrompia
em notas marteladas
ao morrer o dia,
da janela aberta do primeiro andar
das tias.

O chá das cinco, debicado
com torradas e docinhos
ao ritmo já cansado
do relógio antigo
ao canto do salão.

Sinh'Ana e Dona Mariquinhas,
que vinham normalmente
às sextas-feiras
para a cavaqueira do serão.

- como tudo agora é só saudade,
vagamente retida na lembrança!
O piano calou-se e o relógio foi vendido
ao arcado Manoel, prestamista do bairro
Sem remédio e nem esperança,
como tudo mudou!

O tempo varreu as tias e as beatas
O coronel morreu ingloriamente de
bronquite em casa,
e o salão ficou deserto e sem paisagem!

Vôo de asa
que roçou
para  seguir viagem
tudo em nada
(longe e perto)
se tornou...


CONFITEOR
 Erigiste-me o berço, e criaste-me o teto,
ao perfume da flor, numa alfombra orvalhada,
e fizeste-me ler, em mágico alfabeto,
numa explosão de luz, belos contos de fada.

E incustiste-me o amor e legaste-me o afeto
que resiste ao tufão, que suporta a rajada.
E deste-me, sem paga, ó Supremo Arquiteto,
antes da noite, os clarões da alvorada!

E o fragor da cascata, e o murmúrio da fonte,
e o silêncio da sombra e o tumulto da lida,
e a agonia do sol, que incendeia o horizonte.

Mas só me curvei ao Teu manto inconcusso
quando me deste, Senhor, das tormentas da vida,
este amor infinito, me calando o soluço!


SIMPLICIDADE
 Quero uma casa modesta
Onde Deus more comigo
E que tenha um ar de festa
Sempre que chegue um amigo.

Quero-a simples, mas farta,
Cheia de sol e bom pão
Para que um amigo não parta
E outro não chegue em vão.

Quero-a humilde e singela
Sem qualquer ostentação
Que quem entre enxergue nela
A imagem de um  coração.

Sou modesta por prazer
Ser simples dá-me alegria
Pois basta-me para viver
O nosso pão de cada dia.

E tudo que eu partilhar
Louvo a Deus, tenha certeza
Já tenho pão p'ra calar
Os gemidos da pobreza.


ENVELHEÇO   
 Este sublime
entardecer
antes do deslumbramento
da aurora
sem fim.

Essa folha
sacudida
no espaço
da fantasia
turva e vaga.

Esse outono
sem lareira
sem flores
nem fronteiras
no jardim.

Esse lume vencido
pelo cansaço
que o sol
esquece e o tempo apaga.


VENTURA
    Vem ter comigo, amor, mas de mansinho
Prá que não te ouça alguém, a não ser eu
Vem ter comigo, amor, a noite é breu
E nosso quarto é tão quente como um ninho.

Vem ter comigo, amor, devagarinho
Quero encontrar na noite o rosto teu
E o maior beijo que jamais se deu
Repousa em minha boca com carinho.

Quero mergulhar as mãos nos teus cabelos
E nesse gesto, amor, que te seduz
Dar-te tudo o que tenho em doce anelo.

Das tuas mãos fazer o meu sudário
Dos teus fortes braços a minha cruz
E do teu louco amor o meu calvário!

RECEITA
Apetece-me cozinhar estrelas
com casca
E à mistura
muitos luares.
Ah, manjar celeste
sopa de poetas,
tantos jantares,

tantos ascetas!